Artigo

08 de Maio, 2014

Homilia – 3º Domingo da Páscoa – 04.05.14 (At 2,14.22-23; Pd 1,17-21; Lc 24,13-35)

Hoje, 04 de maio, celebramos o 3º Domingo da Páscoa. Motivados pelos textos bíblicos que são proclamados neste tempo pascal, nós conseguimos compreender que a ressurreição de Jesus Cristo é o centro da nossa fé, o acontecimento que marca um novo tempo na história da salvação e que, particularmente, transformou a vida dos seus discípulos, dando um novo sentido, pois, eles estavam desanimados e dispersos devido a sua morte.

Os relatos das aparições de Jesus Ressuscitado, o testemunho dos Apóstolos e as experiências das primeiras comunidades cristãs vão descortinando para nós uma perspectiva renovada, ardorosa e missionária para vivermos o nosso compromisso batismal.

A 1ª leitura dos Atos dos Apóstolos apresenta-nos Pedro, depois de Pentecostes, em pleno exercício da sua missão, testemunhando a vitória de Cristo sobre a morte e afirmando que pela sua ressurreição nós somos e seremos salvos. Na 2ª leitura, São Pedro nos garante que devemos acreditar em Deus e n’ Ele depositar a nossa esperança.

O Evangelho descreve uma das mais bonitas e significativas aparições de Jesus depois de ressuscitado, motivando-nos a meditar cada detalhe do texto para saborear integralmente seus ensinamentos, degustando o sentido de cada palavra ou frase dita por Jesus com o objetivo de despertar em cada personagem da saga e, consequentemente, a seus leitores, a certeza de que vive, está no meio de nós e se manifesta no anúncio da Palavra e na fração do pão eucarístico.

Dois dos seus discípulos voltavam para o povoado onde residiam, chamado Emaús. Eles estavam tristes, desanimados, decepcionados, desiludidos e certos de que a morte de Jesus na cruz foi uma grande frustração, foi uma grande decepção e o fim trágico de uma história marcada pela enganação e pela mentira. 

O texto começa utilizando-se de uma metáfora, informando que a distância entre Emaús e Jerusalém era uns dez quilômetros para evidenciar o longo caminho de meditação que cada um de nós precisa fazer através das Escrituras, para reconhecer que Jesus está vivo, está no meio de nós.

Enquanto eles conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido e discutiam pelo caminho, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles e não foi reconhecido.

Nesse momento difícil de suas vidas, Jesus se aproxima e se põe a caminhar com eles. Estavam, porém, cegos espiritualmente, a ponto de não reconhecerem o ressuscitado, com quem antes já haviam convivido e do qual eram seguidores e discípulos.

Vemos aqui o carinho de Deus que, nas horas difíceis, sempre se coloca ao lado de quem sofre. Vale evidenciar a atitude inicial de Jesus para começar o diálogo, fazendo-lhes uma pergunta sobre o que eles falavam pelo caminho.

Inicialmente, um dos discípulos, chamado Cléofas em tom irônico, em vez de responder a pergunta de Jesus, faz-lhe outra, pois se sentia conhecedor dos acontecimentos. Jesus não condena a ironia do discípulo, mas provoca a reflexão, perguntando sobre o acontecido. Mais uma vez colocando-se numa atitude de escuta.

Os discípulos, como diríamos, abrem o verbo e narram os fatos a Jesus revelando que estão bem informados, sobre todos os acontecimentos, pois descrevem com detalhe, tudo o que aconteceu desde a sexta-feira da sua morte até aquele terceiro dia.

Tendo ouvido tudo com atenção, Jesus começa o processo de catequese afirmando: “Como sois insensatos e lentos para crer em tudo o que disseram os profetas” e fazendo outros questionamentos explica aos dois discípulos sobre tudo o que fala a escritura a seu respeito começando por Moisés e por todos os profetas, o que fez arder o coração dos discípulos.

É interessante notar que somente depois que os discípulos mostraram toda a sua realidade interior e limitações humanas é que Jesus se põe a evangelizá-los. Às vezes, isto não acontece conosco. Temos o costume de pregar para as pessoas sem conhecê-las devidamente, sem saber qual é a dimensão de seu vazio ou o nível de riqueza que elas já trazem. Assim, revelamos que não entendemos que o Evangelho é profundamente humano e, muitas vezes, o que estamos anunciando a alguém como uma novidade pode não ser, pois o que comunicamos pode ser que já seja conhecido e vivido até num grau maior do que o nosso.

Quando vai aproximando-se da aldeia, Jesus provoca neles uma atitude fraterna, "fazendo de conta que ia mais adiante". O texto destaca a insistência dos discípulos para que Jesus permanecesse com eles.

Aqui é consolador verificar que Jesus provoca e aceita um encontro mais íntimo e espiritual com os discípulos ao redor da mesa em uma refeição e, ao partir o pão, deixa-se conhecer. Assim, compreendemos que é no partir o pão, isto é, na celebração da Eucaristia, como o ponto mais alto da Liturgia, que podemos reconhecer Jesus Cristo plenamente como o nosso Salvador, ao mesmo tempo em que somos despertados para a nossa vida de comunhão e de partilha.

A palavra de Jesus fazia arder o coração dos discípulos, no caminho, mas não lhes dava ainda a capacidade de reconhecê-lo plenamente. Isto só aconteceu quando se puseram à mesa e partiram o pão. Daí então, no mistério da liturgia, a presença de duas mesas: a da Palavra, que orienta para a Eucaristia, já como alimento redentor, e a mesa eucarística, que dá culminância e plenitude à Palavra. Se o Verbo se fez carne e habitou entre nós, no Mistério da Encarnação, (cf. Jo 1,14), no Mistério da Páscoa o Verbo se faz Pão, para ser nosso alimento eterno (cf. Jo 6,35).

 A narração é concluída afirmando que eles retornaram e contaram aos outros discípulos o que tinha acontecido no caminho e como reconheceram Jesus, ao partir o pão.

Muitos são os ensinamentos que podemos transformar numa prática de vida. Porém, quatro chamam a nossa atenção:

1º) A atitude de Jesus que se aproxima, dos que se afastam d’Ele, dos que sofrem colocando-se ao lado dos caminhantes, sem esperança e frustrados; ouve, em primeiro lugar, as suas queixas; respeita os seus limites e suas precariedades como também o reconhecimento de suas qualidades e virtudes. Portanto, aproximar-se e ouvir o outro deve ser a nossa primeira atitude diante do irmão que sofre, que passa por alguma dificuldade, que deseja ser escutado.

2º) A nossa vida de fé deve ser iluminada pela Sagrada Escritura, fortalecida pela eucaristia e fundamentada na verdade da ressurreição de Jesus.

3º) Assim como os discípulos de Emaús retornaram e ficaram para sempre na comunidade dos discípulos de Jesus, nós devemos valorizar o engajamento na comunidade eclesial, como expressão de compromisso e de pertença a Igreja que nos concedeu a graça do batismo e é o corpo místico de Jesus Cristo ressuscitado.

4º) Jesus Cristo, o Senhor do Bonfim, é a verdadeira e única esperança. N’Ele encontramos o alento, a alegria verdadeira, a paz que necessitamos. Estando desanimados, tristes, desiludidos, perturbados ou enfrentando qualquer tipo de crise, devemos procurá-Lo e, com certeza, O encontraremos e n’Ele ressurgiremos para vida nova, fazendo a experiência pascal da libertação, da conversão, da mudança de vida.

Pe. Edson Menezes da Silva

Reitor da Basílica Santuário do Senhor do Bonfim – Salvador – Bahia - Brasil